Carpe Tudem. Simples assim. Como você aprendeu nas aulas de literatura, lembra!? Carpe Diem! O Tudem é licença poética... Dá pra encarar, né? O blog vem da vontade de dividir. De contar pra quem quiser ouvir. O autor vem de Barra do Piraí, interior do estado do Rio. Hoje, vive na capital. A inspiração vem do título do blog, do Carpe Tudem. O Carpe Tudem... Ah, companheiro, isso vem de berço. Aproveite você também!
O sol ainda forte se punha no horizonte e a visão que eu tinha era a mais bonita em tempos. Sentado na areia, admirava a perfeição do desenho que as sombras caprichosamente riscavam no corpo dela. Aquele ponto de vista valorizava tudo o que deveria ser realçado. E aquele momento de vida apagava tudo o que deveria ser esquecido. A minha musa estava de volta, enfim.
Entre uma e outra água de coco, falávamos sobre como a vida foi cruel em nos separar daquele jeito. Havíamos jurado amor eterno sem conhecer as ambições de nosso espírito. E quem prioriza os anseios da carne costuma mesmo não ser feliz no fim da história. Só que aquele reencontro vinha para me mostrar que ainda havia recursos... E que a história, afinal, ainda não havia terminado.
E me perdi por horas naquele sorriso, pagando uma dívida de beijos que acumulara por muitos anos a fio. Em todas as poesias que escrevi pra ela e por cada segundo em que não a tive nos braços, me culpei. Não devia tê-la deixado ir, já que envelheci sem encontrar a redenção.
Perguntava a mim mesmo como aquele corpo ainda era exatamente igual ao que guardei na memória, se eu já contava tantas décadas de vida vivida após o nosso último adeus. E me intrigava ao pensar se me restaria vida o suficiente para tê-la tanto quanto nossas almas se mereciam.
Aí, tocou o despertador.
Abri os olhos, culpado de novo. Abri os olhos, certo de que não haveria sol, praia, o corpo ou o sorriso dela. Abri os olhos para acordar sozinho, mais uma vez. E fechei os olhos, mergulhando em amargura e pensamentos, sem me perdoar.
Dia calmo no céu, Deus apontou uma alma que estava tranqüila na fila da encarnação e sentenciou:
- Esse irá ao mundo para amar mais do que será amado.
Minutos depois, numa maternidade qualquer chorava o pequeno e ruivo Josué. Em poucos minutos, sossegava os soluços pela primeira vez nos braços da mãe – que esperava um filho mais bonito, tirando por base a beleza do marido, seu grande amor.
Josué cresceu cercado de outros garotos, que viviam em sua casa para curtir com seus brinquedos. Julgava ter muitos amigos, mas ninguém estava disposto a parar o futebol quando ele se machucava, a inteirar o dinheiro da merenda ou a convidá-lo pra jogar videogame junto.
Na adolescência, com 13 anos, Josué conheceu Ana Rita. Ela tinha 17 e encantou o jovem. Foi paixão à primeira vista e ele logo percebeu que a vida fica muito mais complicada quando se quer amar alguém que pouco se conhece. Só que, numa tarde chuvosa, Ana Rita o beijou. Josué se sentiu o sujeito mais feliz do mundo por um instante... E por anos a fio viveu de relembrar aquele doce momento. Era um amor todo dele. Tão dele, que pra Ana Rita nada significou. No mesmo dia, ela beijou outros dois guris.
E algo parecido aconteceu quando ele se encantou pela Mariana. Também foi assim com a Letícia, com a Maria, com a Teca e muitas outras, que eu honestamente não lembro o nome. Josué lembra os nomes. De todas.
A essa altura, Josué entrou pra faculdade. Já não tinha contato com a turma que passou a infância e nem entendeu o porquê de seus pais insistirem tanto para que ele fizesse o curso de Jornalismo em outra cidade. Tão longe de casa. Josué se sentiu sozinho e tinha muito amor pra dar.
Tempinho depois, adorava a relação que julgara ter estabelecido com Gisé, a dona da pensão, que todos os dias lhe servia o café-da-manhã e o jantar. O almoço era sempre na rua ou na faculdade. Ele via dona Gisé como uma espécie de segunda mãe. Ela o via como mais um dos garotos mimados que passaram por ali. A única diferença: esse era ruivo.
Josué também gostava muito do professor Eraldo, que lecionava Teoria da Comunicação II. Um verdadeiro mestre, exemplo a ser seguido. O garoto adorava discutir a aula após o horário e lia tudo o que Eraldo indicava como interessante. Por admirar a sabedoria do professor, Josué estava decidido a levar aquela amizade pra além dos muros da faculdade. Foi aprovado com um 7,5, a menor nota de toda turma.
Mais do que o diploma, foi na faculdade que Josué conheceu aquela que se tornaria sua mulher. Priscila era uma jovem bonita, que adorava festas animadas e acabou por engravidar do Donato, um garoto rico da cidade que nem gostava dela tanto assim. Desde o primeiro dia de aula, Josué esperava por uma chance. Priscila sabia. Honesta, contou tudo sobre a gravidez ao nosso herói. Josué a prometeu casa, comida, roupa lavada... Jurou um mundo à moça, que aceitou. Ele ainda não sabia que as mulheres em geral, quando querem alguém pra vida toda, pensam apenas num quesito: segurança.
E nasceu o rebento. O ruivo Josué, já casado com a morena Priscila, agora era pai de Frederico - que nascera loiro de olho azul. Josué amou Fred como um verdadeiro pai. E Fred nunca soube retribuir à altura, como um verdadeiro filho sempre faz afinal.
No trabalho, entre promoções, demissões e transferências, Josué conheceu muitos chefes carrascos. Outros, líderes. Nesse mundo profissional que resumia vaidades, interesses e julgamentos de valor, Josué nunca se destacou.
Pri envelheceu grata a Josué, mas jamais lhe deu um "outro" filho. Dizia que a idéia de colocar no mundo uma criança pra ganhar o apelido de "Ferrugem" a apavorava. Besteira.
E a vida passou...
Prestes a completar 72 anos, Josué morre em sua rede, após tomar uma taça de vinho, escrevendo uma poesia.
E Deus o reencontra de sorriso no rosto e braços abertos, satisfeito por ver mais uma alma com um triste carma ter cumprido sua missão. E, mesmo prevendo no que ia dar, puxou conversa:
- Querido Josué, como foi tudo por lá? – perguntou o Todo Poderoso.
- Amei, meu Deus. E como amei... – respondeu o servo, sorrindo.
- É. Eu ouvi dizer.
- Se pudesse escolher, eu queria mais uma outra vida feita de amor, Pai.
- Quem sabe, meu filho? Quem sabe? Agora, aproveite seu descanso. Horas dessas, você encarna de novo.
E Josué se afastou andando. Sorrindo feliz.
* * * *
Em outubro de 1983, às 20h20 num quarto de maternidade em Barra do Piraí, eu nasci...
Quem inventou o amor fez questão de nada explicar. E é aí que a gente bate cabeça, tentando decifrar a intenção desse sujeito. Um sentimento até bonito, todos devem admitir. Mas, também há horas em que a coisa desanda e há um certo sofrimento.
Todos vêm dizer que é assim que se cresce. Que não dá pra aprender a viver essa vida se for sem paixão e amor. Pois eu já prefiro me fartar com as paixões e repensar esses amores. Porque momentos felizes, ambos são capazes de oferecer. E a parte chata é muito mais um "privilégio" do segundo.
Dia desses ouvi numa mesa de bar: "- Eu ainda gosto um pouquinho de cada uma das pessoas que verdadeiramente amei.". Virei outro chope, me peguei a pensar e acabei por concordar com aquele grande amigo. Percebo que muita gente passa por nossas vidas e a maioria, despercebida. Sendo assim, só o amor é que consegue promover as comuns a especiais, estejam juntos ou separados. E isso é bonito demais.
É... Acontece que hoje eu parei pra refletir sobre a teoria desses sentimentos. Natural quando você é uma pessoa minimamente inteligente e passa por algum drama, seja ele qual for. A primeira forma para entender o que está se passando é mesmo tentar decifrar o que se sente.
Bonito e fácil de escrever... Um tanto complicado de praticar.
Deixe a barba crescer, corte o cabelo, vista sua melhor roupa e esteja preparado para viver tudo outra vez.
Respire fundo e recomece como se fosse de novo um garoto. Lá vamos nós, engolir os sapos...
Transformar amores em paixões, para que tudo permaneça como se fosse a semana um. Curtir sol em dias de inverno e se molhar na aridez de uma vida em que nada mais parece valer a pena.
Que o carnaval está chegando e você precisa sair pra ver a banda passar, filho.
Por mais que não queira e que a música seja a mesma dos anos anteriores. Você não é! O que já é duro de aceitar, eu sei...
Mas... Esperam algo de ti. Sabe? Quem você pensa que é para decepcioná-los? Vá lá. Divirta-se e será abençoado. Cedo ou tarde. Conforme for.
A vida não é feita pra se esquecer... Ela é sim moldada para superar. Tanto os fatos quanto a si mesmo.
Trocador de ônibus. Jorge já não tinha mais como continuar insistindo em investir seu tempo para conseguir um emprego melhor e acabara aceitando fazer algo que sempre criticou. "Um cara que tem dois braços e duas pernas, vai ser trocador de ônibus? Qualquer máquina faz esse trabalho", costumava dizer. Mas, mais forte que as convicções são as circunstâncias. E o Jorge precisou acomodar seu corpo naquela cadeira do ônibus.
Ser trocador de ônibus é viajar de graça por horas e horas, mas sem chegar a lugar nenhum. É ver a água gelada do início da jornada esquentar aos poucos, até que seja melhor ficar mesmo sentindo sede do que beber. É agüentar bêbados, idosos e mulheres em TPM. É exercer autoridade para expulsar vendedores, garotos de rua e outros marotos que insistem em entrar na condução pela porta de saída. Em dias de calor, andar nos carros sem ar condicionado é padecer no inferno.
Mas, Jorge foi se habituando. O trabalho era honesto, pagava as contas e ainda o permitia levar a pequena Estrela, filha de um frustrado casamento, duas vezes por mês ao Zoológico Municipal. A menina adorava bichos selvagens. "Ela iria adorar ver as coisas que o papai encara nessa merda desse trabalho", pensava constantemente.
Jorge reclamava, mas não se mexia. Acostumara-se àquela posição em que viaja no ônibus. Enquanto todos os sentados no ônibus viajavam de frente ou de costas em suas cadeiras, Jorge era o único que viaja de lado. Quilômetros e quilômetros, sempre de lado. Como um caranguejo... Aquele que anda pra um lado, pra outro e só. Jorge já podia ser comparado a um bicho incapaz de andar pra frente.
Quem disser que a vida tem apenas um sentido
É capaz de morrer sem conhecer o amor
Desses que vale a pena ser experimentado e vivido
Intensamente, sem que se preocupem com nenhuma dor
Pois toda paixão acaba em sofrimento... E só isso é certo
Ainda assim, o mundo está cheio desse tipo gente
Uma gente que não anseia por ter alguém por perto
Uma gente que nunca viverá intensamente
Se choro, se rio, me vanglorio ou me lamento
Já não importa nem sequer como vou
Desde que valha a pena um vão momento
Melhor que a maioria, sei que estou
A vida pode até cessar de todo movimento
Desde que esteja parada pra viver um grande amor
Ela tem o jeito só dela de me olhar Que me convence da coisa certa a fazer Se eu estou a ponto de pedir pro mundo parar Só ela é capaz de me fazer esquecer
Tento argumentar, digo que comigo não é assim Mas a moça tenta em me apontar seu caminho Insisto que ninguém sabe o que é melhor pra mim E ela bate o pé: "o pior é ficar assim sozinho"
E é aí que eu perco de todo a minha razão Pra relembrar um mundo que cansei de descobrir Que já conheço como a palma de minha mão
"É a vida...", dizem os que querem me ver sorrir E isso se torna resposta, na falta de uma real solução Se alguém perguntar por mim, diz que eu fui por aí...
Não sei se há uma outra dor Capaz de doer como dói um desamor Essa dor que não distingue a alma do corpo Que começa antes do amor estar morto.
Parece uma pontada, dentro do peito Que, de repente, quando tudo parecia perfeito Resolve aparecer... Desanda a doer... Dor de desamor é capaz de pôr tudo a perder.
E para essa doença não há cura ou remédio Culpa de desilusões, frustrações ou apenas azar Capazes de transformar a paixão num grande tédio
No fim das contas, não dá mesmo pra explicar Há vezes em que o motivo nem é deste sério Um desamor destrói quando só se quer amar.
Manhã de sábado, os dois se reencontram no hall de espera do aeroporto de São Paulo. Fruto legítimo do acaso.
Ele estava voltando para o Rio de Janeiro, após uma semana de trabalho na Terra da Garoa. Ela, embarcando por tempo indeterminado para San Francisco, depois de uma vida de casos perdidos em solo paulista.
- Quanto tempo, hein, menina?
- Pois é... Meses.
- E você sabe: trocar e-mails contigo não substituem nossos papos... Prefiro um minuto falando pessoalmente a escrever vinte ou trinta mensagens por dia.
- Mas a agenda não deixa eu te encontrar tanto quanto eu gostaria...
- É, está corrido. Pra todo mundo, acho.
- O que te trouxe a Sampa dessa vez? Julio, eu nem sabia que você estava por aqui.
- O de sempre: trabalho.
- Ficou no Hyatt?
- Não, Blue Tree. É pertinho também.
(Silêncio)
E ela:
- Você não me ligou mais...
- As coisas mudaram.
- Eu soube, vi no Orkut.
- É...
- Mas, podia ter ligado.
- "Devia" ter ligado. "Poder", eu não podia não. Ela tem ciúmes de você.
- Mas, Julio, a gente sempre foi tão colado. Vem namoro, vai namoro e os amigos ficam, cara. Assim como o meu ombro está aqui pras suas desilusões, espero que o teu esteja aí pras minhas.
- Sempre, Manu. Sempre.
(Silêncio)
E ele:
- San Francisco?
- San Francisco!
- Férias?
- Não.
- Trabalho?
- Não.
- ???
- Não sei ao certo, cara. Uma espécie de terapia alternativa, talvez. Dessa vez é mais sério... Não vai ser um papo que vai resolver.
- E aí, você foge?
- Não é uma fuga!!
- Então, o quê?
- Um tempo. Só pra mim.
- Eu disse pra você contar comigo, com meu ombro amigo.
- Julio, eu queria que você morasse aqui. Eu queria você mais perto.